BRICS em defesa do multilateralismo e contra a guerra comercial.

A 10ª Cúpula do BRICS, em Joanesburgo, iniciou-se com a responsabilidade de afirmar o compromisso dos cinco países na defesa do multilateralismo comercial e da democratização do sistema internacional diante da ameaça da expansão do protecionismo comercial e do unilateralismo em razão da “guerra comercial” iniciada pelos EUA
Por Andressa Schneider

A 10ª Cúpula do BRICS, em Joanesburgo, iniciou-se com a responsabilidade de afirmar o compromisso dos cinco países na defesa do multilateralismo comercial e da democratização do sistema internacional diante da ameaça da expansão do protecionismo comercial e do unilateralismo em razão da “guerra comercial” iniciada pelos EUA. Esta “guerra comercial” terá reflexos negativos sobre o crescimento da economia mundial e imporá maiores dificuldades aos países em desenvolvimento. Além disso, ela enfraquece a OMC, aprofundando ainda mais a crise de eficácia e legitimidade da organização desde a inconclusa Rodada Doha iniciada em 2001.

Medidas unilaterais que provocam danos generalizados a vários países podem perder a sua característica de “medida de proteção” do mercado e dos empregos domésticos para se revelar em um tipo de “ato de agressão” contra os mercados e empregos de outros países. A OMC foi criada exatamente para ser o arcabouço institucional-normativo de referência que determina os limites de ação dos Estados no comércio internacional de modo a promover uma “competição” e não uma “guerra” comercial entre eles.

Diante deste contexto, é necessário que os países do BRICS desmontem as armadilhas da retórica unilateralista e das medidas protecionistas dos EUA por meio da enfática defesa do sistema multilateral do comércio da OMC e do incremento do comércio intra-BRICS. E, neste quesito, ainda há muito a ser feito. A China é o único país que mantém relações bilaterais comerciais substantivas com cada um dos demais quatro países do BRICS.

Discute-se se o aprofundamento do comércio intra-BRICS deve ser acompanhado do alargamento do BRICS. Na Cúpula do ano passado, em Xiamen (China), o governo chinês propôs a ampliação do grupo de forma a admitir outras economias emergentes. Esta proposta ficou conhecida como “BRICS-Plus”. Relatórios do Banco Mundial já vem demonstrando a tendência de maior participação dos países em desenvolvimento na economia mundial. Tem-se assim, dois movimentos importantes a serem considerados pelo BRICS: de um lado, o aprofundamento vertical das relações comerciais intra-BRICS e, de outro, o alargamento horizontal de modo a admitir novos membros, promovendo a democratização do sistema internacional e maior liberalização do comércio. Quanto a este último movimento, é preciso, contudo, que o alargamento tenha em conta certos critérios, dentre eles, a manutenção da agenda em defesa da reforma de algumas organizações internacionais. E, neste quesito, além do Banco Mundial, do FMI e das Nações Unidas, a OMC talvez deva ser incluída no rol das instituições internacionais que precisam ser reformadas.

Mas paralelo ao propósito reformista, os países do BRICS poderiam promover iniciativas concretas que fortaleçam o comércio internacional. A China dá o exemplo este ano. Nos dias 5 a 10 de novembro o governo chinês promoverá a primeira “China International Import Expo (CIEE)”, em Shanghai. O país que ficou conhecido como a nação exportadora, agora quer comprar bens e serviços estrangeiros para suprir a crescente demanda doméstica por mais e melhores produtos. Este evento, que contará com mais de 100 países e regiões, é um exemplo de iniciativa que favorece a promoção do comércio internacional. O Conselho Empresarial dos BRICS poderia ter um papel mais ativo na Expo e, também, planejar outras iniciativas semelhantes para o futuro.

Por meio de iniciativas concretas, o BRICS tem a oportunidade de reagir positivamente ao unilateralismo e ao protecionismo, sem se deixar paralisar diante dos atuais obstáculos. Ao contrário do que se pode supor, este atual momento, apesar dos obstáculos da conjuntura internacional, é uma grande oportunidade para o BRICS mostrar o seu compromisso com a construção de uma comunidade de destino comum da humanidade.


Evandro Menezes de Carvalho

Editor Executivo Chefe da revista China Hoje. Coordenador do Núcleo de Estudos Brasil-China da FGV e do Centro de Estudos dos Países BRICS da UFF.

 

Publicado em: 30/07/2018

Mais Relevantes

Montadoras chinesas avançam no mercado italiano de elétricos

Montadoras chinesas avançam no mercado italiano de elétricos

Montadoras chinesas vêm ganhando espaço rápido no mercado italiano de veículos elétricos e híbridos plug-in, impulsionadas por preços competitivos, mais opções de modelos e demanda crescente por híbridos plug-in. Dados da associação italiana UNRAE mostram que a BYD...

China pede que EUA revoguem tarifas sobre drones chineses

China pede que EUA revoguem tarifas sobre drones chineses

O Ministério do Comércio da China pediu nesta quinta-feira (20) que os Estados Unidos revoguem imediatamente as tarifas da Seção 232 sobre drones e peças de drones, alegando que a medida prejudica seriamente empresas chinesas e atrapalha a cooperação nas cadeias...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *