Um novo futuro para as relações sino-americanas

Intensificação do diálogo e intercâmbio cultural criam bom ambiente entre China e EUA
Por Andressa Schneider

As escolhas políticas da China e dos EUA há muito tempo se estendem além das relações bilaterais, que, em grande medida, determinam a estabilidade e a prosperidade da região Ásia-Pacífico e do mundo inteiro, e estão intimamente relacionadas ao rumo do desenvolvimento global. Após quase quatro décadas, China e EUA têm um relacionamento altamente complexo e interdependente em todos os aspectos. Nos primeiros seis meses da administração Trump, o presidente americano adotou uma abordagem puramente transacional das relações diplomáticas com a China, o que tornou o relacionamento apático e indefinido.

Os debates em 2015 sobre as estratégias dos EUA em relação à China já prenunciavam esse estado de coisas. Hoje, alguns problemas difíceis continuam a testar as relações bilaterais, especialmente a questão nuclear da Coreia, o sistema de defesa antimíssil (THAAD, de Terminal High Altitude Area Defense ou Defesa Terminal de Área de Alta Altitude), os atritos entre China e Japão no Mar do Leste da China e as disputas territoriais entre a China e alguns países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês), no Mar do Sul da China.

No entanto, as relações China-EUA progrediram a um nível que vai além da suscetibilidade a mudanças cognitivas, quer individuais, quer unilaterais. A ascensão da China e sua influência crescente, o período de sucesso do modelo de desenvolvimento da China, assim como o próprio desenvolvimento dos EUA e sua confiança na participação da China nas grandes questões tanto globais quanto regionais, tornaram-se fatores estruturais na estabilidade das relações China-EUA. Portanto, as relações atuais entre os dois países permanecem no geral equilibradas.

No eventual surgimento de dúvidas estratégicas ou diferenças a respeito de certos problemas importantes, a própria existência dessas dúvidas ou diferenças sinaliza para os dois países a importância de diálogos objetivos que esclareçam as respectivas intenções e pontos principais. A avaliação dos custos e benefícios das várias opções políticas impelem a China e os EUA a uma formulação contínua de um novo equilíbrio cognitivo baseado no padrão regional existente. Esse processo tem ressaltado que a melhor opção é promover ajustes e adaptações mútuos no que se refere às diversas áreas problemáticas, por meio de diálogo e consultas.

Com base nesse contexto, a linha de pensamento sobre as relações China-EUA começa a sofrer uma mudança fundamental, que é confrontar as divergências entre as duas nações em relação aos diversos problemas e detalhes, em vez de simplesmente discutir a importância e a irreversibilidade dos laços bilaterais em nível estratégico. É justamente esse pressuposto otimista que pode evitar muitos dos efeitos negativos dos intercâmbios anteriores entre os dois países.

O diálogo entre os líderes chinês e americano tem desempenhado claramente dois papéis. Um de estabilização, o outro de propulsor das relações sino-americanas.

Diálogo direto

Após seu encontro no resort de Mar-a-Lago na Flórida, os dois líderes estabeleceram vários níveis de comunicação numa ampla gama de ocasiões internacionais. Essas ocorrências refletem a moldagem consciente das relações China-EUA por ambas as partes e o fortalecimento de uma comunicação efetiva, buscando criar condições favoráveis para as relações China-EUA.

Desde a posse de Trump, um novo aspecto dos intercâmbios China-EUA veio se somar ao diálogo apoiado em nível funcional: é a manutenção de diálogos e conversações mais frequentes em nível de liderança. Apenas no último mês de setembro, o presidente Xi Jinping teve dois contatos telefônicos com o presidente Trump, a pedido dele, para discutir questões regionais, entre elas a questão nuclear coreana e a visita do presidente americano à China.

O diálogo entre os líderes chinês e americano desempenhou claramente dois papéis. Um é a estabilização. Embora o presidente Trump se incline a expressar opiniões discordantes pelo Twitter, as frequentes ligações telefônicas entre os dois líderes mantêm claramente as relações China-EUA em um patamar estável. O outro papel é o de propulsor. A razão dessas recorrentes chamadas é a necessidade de confirmar consensos e espaços de cooperação. As ligações diretas entre os líderes sem dúvida aumentam a confiança mútua, e também reduzem o potencial de erros de informação que poderiam ocorrer nas comunicações em nível funcional, puramente de trabalho, que os intercâmbios telefônicos entre os dois líderes também testam e permitem supervisionar. Essas ligações pessoais, portanto, ajudam a China e os EUA a desenvolver parcerias mais maduras.

Os quatro mecanismos de diálogo de alto nível construídos durante a visita do presidente Xi aos EUA incorporam muito bem essa ideia. Ao contrário do diálogo estratégico e econômico anterior entre China e EUA, que marcava todas as questões, os quatro mecanismos de diálogo de alto nível – cobrindo questões diplomáticas e de segurança, economia, aspectos sociais e culturais, manutenção da ordem e segurança cibernética – definem o tipo de diálogo, fortalecem a pertinência de questões específicas, aumentam o controle sobre os tópicos a serem discutidos e permitem aos dois lados uma compreensão mútua mais profunda de suas posições e diferenças. A partir disso, facilitam a discussão de ideias e das maneiras de resolver os problemas abordados.

Quatro mecanismos

As conversações diplomáticas e de segurança mantidas até agora assumem a mesma forma que o diálogo que os EUA mantêm com seus aliados, e reforçam os alicerces de confiança entre China e EUA. O desenvolvimento das relações sino-americanas formula assim uma linha de pensamento “com foco no problema” e “orientada por resultados”.

Nesse diálogo, ambas as partes têm reafirmado a importância de estabelecer uma compreensão mútua e minimizar o risco de um cálculo equivocado por parte de suas respectivas forças armadas. Também reafirmam seus MEs (Memorandos de Entendimento) sobre a implementação de medidas de construção de confiança, incluindo o mecanismo de notificação mútua para grandes operações militares e o código de conduta para encontros marítimos e aéreos fortuitos. Esses mecanismos e linhas gerais de orientação servem como manual de instruções para controlar riscos de potenciais conflitos. O resultado direto disso é que tanto a China quanto os EUA adotaram atitudes mais cautelosas em suas interações diárias, e também uma abordagem marcada por reconhecimento mútuo das diferenças e do risco potencial que elas envolvem.

Durante a visita à China em agosto passado do general Joseph Dunford, presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, as duas forças armadas assinaram o documento-base para construir um novo mecanismo de comunicação para seus departamentos de Estado-Maior. Esse é um aprimoramento qualitativo inédito, com um efeito que vários anos de diálogo estratégico e econômico sino-americano não poderiam esperar alcançar. As duas forças armadas agora têm mais regras a seguir nas questões envolvendo o Mar do Sul da China, o Mar do Leste da China, e nas questões de segurança tradicionais. As regras e procedimentos desenvolvidos em conjunto constituem uma “válvula de segurança” para o controle de riscos.

No nível econômico e de comércio, a razão pela qual China e EUA têm estabelecido um diálogo econômico “abrangente” está na expectativa de uma gama mais ampla de diálogo com conteúdos mais específicos. Mas o processo inevitavelmente traz divergências à tona. Além disso, a alta interdependência e vulnerabilidade comerciais entre os dois países torna impossível que uma parte obrigue a outra a concordar com um programa qualquer sem questionar. A única solução é procurar um novo consenso e formular um mecanismo de resolução de conflitos. É por isso que os dois lados iniciaram em maio um plano de ação de cem dias de cooperação econômica, lançando as bases para a abertura de um diálogo econômico abrangente. O plano de ação já alcançou até agora importantes resultados, com benefícios mútuos. Inclui a volta da carne bovina americana ao mercado chinês após catorze anos, a gradual derrubada de uma política de barreiras à exportação de gás natural liquefeito americano para a China, a aprovação por parte da China dos cinco produtos de biotecnologia americanos, a exportação pela China de aves cozidas para os EUA, e a gradual implementação de aplicativos financeiros.  Esses resultados criam tanto uma boa base de confiança como um clima adequado de cooperação para o diálogo econômico.

Na primeira rodada do Diálogo Econômico Abrangente EUA-China (CED na sigla em inglês, de Comprehensive Economic Dialogue), realizado em Washington, D.C., em julho, ambos os lados discutiram a expansão do comércio em serviços e o crescente investimento mútuo, e instauraram uma cooperação construtiva voltada para reduzir o déficit de comércio. Também chegaram a um consenso sobre a proteção dos direitos de propriedade intelectual, o afrouxamento dos controles de exportação, o fortalecimento do comércio de produtos agrícolas, e outras questões específicas.

“Escolhemos cooperar não pela consideração aos interesses da outra parte, mas por nossos próprios interesses. Isso constitui a motivação para o diálogo continuado entre os dois lados”, declarou o vice-primeiro-ministro chinês Wang Yang, na CED. O Secretário de Comércio americano Wilbur Ross declarou em suas observações finais que, por meio de diálogo construtivo, os dois lados aumentam o respeito e compreensão mútuos, de modo a construir uma base sólida para futura cooperação. Por outro lado, se não há sérias diferenças, ou se surgem problemas que não é possível contornar, a base da cooperação sino-americana desaparece. Determinar as relações  China-EUA com base apenas no resultado de uma ou duas conversações, ou no grau das diferenças, equivale a uma miopia estratégica e a alimentar expectativas não realistas.

China e EUA têm fomentado recentemente o diálogo sobre a manutenção da ordem e da segurança cibernética, e também um diálogo social e cultural. Existe amplo espaço para cooperação nessas áreas, que torna possível explorar novos pontos de crescimento. A segurança da rede é uma preocupação comum cada vez maior dos dois países. O atual mundo cibernético ainda carece de regras e definições claras a respeito dos problemas com que tem de lidar. Os efeitos perniciosos da ausência de controle variam segundo cada país. A China e os EUA precisam fortalecer sua cooperação com as grandes potências mundiais a fim de esclarecer conceitos-chave, desenvolver regras comuns e evitar que a segurança cibernética se torne um fator que afete negativamente as relações China-EUA. Isso irá prover um benefício público global na forma de operação ordenada do espaço cibernético.

Trocas sociais e culturais sempre foram um vínculo importante entre China e Estados Unidos. A compreensão e reconhecimento mútuos são sua base de cooperação em qualquer questão que surja. À luz das significativas mudanças em ambas as sociedades, cada lado precisa expandir a compreensão da cultura do outro, da sua história e maneira de pensar. Só então a China e os EUA serão capazes de compreender um ao outro ao lidarem com grandes questões diplomáticas e políticas, e de formular políticas coordenadas concretas. Nesse sentido, os intercâmbios sociais e culturais continuarão tendo um papel indispensável.

Intercâmbios sociais e culturais sempre foram um vínculo importante entre China e Estados Unidos. Compreensão e reconhecimento mútuos são a base cooperativa com que ambos contam para qualquer problema que surja.

Futuro promissor

Com base nesses diálogos, a cooperação China-EUA precisa alcançar duas metas mais elevadas. Primeiro, como dois grandes países, ambos devem resolver as questões bilaterais por meio de suas práticas nativas, e considerar o arranjo de uma nova ordem. Os quatro mecanismos de diálogo de alto nível estão relacionados à estabilização da ordem em certas áreas, ou à sua remodelação. Isso é de grande relevância para resolver problemas regionais e globais. A cooperação China-EUA irá determinar se a ordem regional do Leste Asiático, que está sendo afetada por várias questões de segurança, poderá ser estabilizada, se a ordem de livre-comércio que beneficia todos os países é sustentável, e se o “desgovernado” mundo cibernético pode operar de maneira ordenada.

Segundo, China e EUA devem alcançar alto nível de compreensão, ou seja, compreensão mútua e respeito ideológico. A razão pela qual se fala tanto hoje sobre a Armadilha de Tucídides e a inevitabilidade do conflito, a “tragédia da política das grandes potências”, é que o Ocidente previu o caminho escolhido pela China segundo seus próprios precedentes históricos.

Esse tipo de pressuposto significa a desconsideração do Ocidente pelas diferenças entre a cultura chinesa e a ocidental. Certas políticas reativas, no contexto da ascensão da China, supõem de maneira simplista que a China irá seguir os passos das grandes potências que, depois que ganharam força, buscaram a hegemonia. China e Estados Unidos precisam chegar a um novo modelo de relações entre grandes potências, e em última instância precisam percorrer essa distância para alcançar um sentido de mútuo reconhecimento. Essa é a importância do diálogo China-EUA, e também a missão histórica dos dois países.

Após décadas de desenvolvimento, as relações sino-americanas ainda enfrentam novos problemas, e experimentam constantes embates que mudam a percepção mútua. E como suas respectivas estruturas sociais, junto com o ambiente internacional, continuam mudando, as relações China-EUA podem ser mais bem retratadas como “cruzando o rio tateando as pedras”, isto é, testando cada passo e avançando com cautela. Há boas razões para crer que China e EUA podem criar um futuro melhor.

Publicado em: 21/04/2018

Mais Relevantes

Montadoras chinesas avançam no mercado italiano de elétricos

Montadoras chinesas avançam no mercado italiano de elétricos

Montadoras chinesas vêm ganhando espaço rápido no mercado italiano de veículos elétricos e híbridos plug-in, impulsionadas por preços competitivos, mais opções de modelos e demanda crescente por híbridos plug-in. Dados da associação italiana UNRAE mostram que a BYD...

China pede que EUA revoguem tarifas sobre drones chineses

China pede que EUA revoguem tarifas sobre drones chineses

O Ministério do Comércio da China pediu nesta quinta-feira (20) que os Estados Unidos revoguem imediatamente as tarifas da Seção 232 sobre drones e peças de drones, alegando que a medida prejudica seriamente empresas chinesas e atrapalha a cooperação nas cadeias...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *